segunda-feira, outubro 17, 2011

Recomendações da Comissão sobre Determinantes Sociais da Saúde


1. Melhorar as condições de vida

• Melhorar o nível de bem-estar de meninas e mulheres e as circunstâncias em que seus filhos nascem
- Enfatizar fortemente o desenvolvimento na primeira infância e na educação das crianças

• Administrar o desenvolvimento urbano
- Maior disponibilidade de moradia a preços acessíveis
- Investir na melhoria de áreas de favela, especialmente em relação à água, ao saneamento, a eletricidade e a pavimentação de ruas

• Assegurar que o planejamento urbanístico promova comportamentos saudáveis e seguros de forma igualitária
- Transporte ativo
- Melhor planejamento do varejo, para que seja possível regular o acesso a alimentos que não sejam saudáveis
- Desenhos ambientais e controle regulatório de boa qualidade (por exemplo, número de locais de venda de bebidas alcoólicas)

• Assegurar que políticas destinadas ao combate das mudanças climáticas levem a equidade em saúde em consideração

• Fazer do emprego pleno e justo um objetivo comum de instituições internacionais e um aspecto central de políticas nacionais e estratégias de
desenvolvimento
- Fortalecer a representação dos trabalhadores durante a criação de políticas, leis e programas relativos ao emprego

• As agências internacionais deveriam ajudar os países a proteger todos os trabalhadores
- Instituir normas trabalhistas fundamentais para trabalhadores formais e informais
- Desenvolver políticas que garantam o equilíbrio entre a vida profi ssional e a vida pessoal.
- Reduzir as consequências negativas da insegurança entre trabalhadores em situação precária

• Expandir os sistemas de seguridade social progressivamente
- Assegurar que os sistemas incluam aqueles em situação trabalhista precária - o que inclui os que se dedicam ao trabalho informal ou doméstico ou
que prestam serviços assistenciais

• Criar sistemas de saúde de qualidade, com cobertura universal e centrados na atenção primária à saúde
- Fortalecer a função gestora do setor público no financiamento de sistemas de saúde equitativos que assegurem o acesso universal aos serviços de
saúde, independente da capacidade do usuário de pagar
- Combater a “fuga de cérebros”, com foco na contratação de pessoal para a área da saúde e na sua formação, mediante acordos bilaterais que
regulem perdas e ganhos

2. Combater a distribuição desigual de poder, dinheiro e recursos

• Colocar a responsabilidade pela saúde e pela equidade em saúde nos níveis mais altos do governo e assegurar que todas as políticas implementadas
contribuam para esse fim de forma coerente
- Avaliar o impacto de todas as políticas e programas sobre saúde e na equidade em saúde

• Fortalecer o financiamento público de intervenções sobre os determinantes sociais da saúde

• Aumentar a ajuda global para que atinja os 0,7% do PIB prometidos e ampliar a Iniciativa para o Alívio da Dívida Multilateral

• Focar coerentemente os determinantes sociais da saúde no marco dos documentos da estratégia de luta contra a pobreza

• Institucionalizar a consideração à saúde e à equidade em saúde nos acordos econômicos e na elaboração de políticas nacionais e internacionais

• Reforçar o papel fundamental do Estado na prestação de serviços essenciais à saúde (como o fornecimento de água e o saneamento) e na regulação
de bens e serviços que afetem de maneira importante a saúde (como o tabaco, o álcool e os alimentos)

• Criar e assegurar a aplicação de leis que promovam a equidade de gênero e que tornem ilegal a discriminação sexual

• Investir mais em serviços e programas de saúde sexual e reprodutiva até alcançar a cobertura e direitos universais

• Fortalecer sistemas políticos e legais
- Proteger os direitos humanos
- Garantir identidade jurídica e atender às demandas de grupos marginalizados, especialmente os povos indígenas

• Assegurar representação e participação justas de indivíduos e comunidades na tomada de decisões relativas à saúde

• Facilitar a atuação da sociedade civil sobre direitos políticos e sociais que afetam a equidade em saúde

• Fazer da saúde uma meta global de desenvolvimento

3. Medir a magnitude do problema, compreendê-lo e avaliar o impacto das intervenções

• Assegurar a existência de sistemas de monitoramento sistemático da equidade nos níveis local, nacional e internacional
- Garantir que todas as crianças sejam registradas no nascimento
- Estabelecer sistemas de vigilância da equidade em saúde nos níveis nacional e global

• Investir na produção e no compartilhamento de evidências sobre os determinantes sociais da saúde e a equidade em saúde, assim como relativos à efetividade das medidas
- Estabelecer um orçamento fixo para a produção e o compartilhamento de evidências

• Treinar atores políticos, partes interessadas e outros agentes quanto à questão dos determinantes sociais da saúde, assim como sensibilizar o público
- Integrar os determinantes sociais da saúde na formação de médicos e agentes de saúde
- Ensinar formuladores de políticas e planificadores a utilizar estudos de impacto sobre a equidade em saúde
- Dotar a OMS dos meios necessários para apoiar intervenções sobre os determinantes sociais


18 de outubro - Dia do Médico no Brasil

Conferência Global sobre os Determinantes Sociais da Saúde

Começa na quarta-feira, dia 19 de outubro de 2011 a Conferência Global sobre os Determinantes Sociais da Saúde.

Em torno de 120 países representados por seus Chefes de Estado e mais de 60 Ministros da Saúde, Ação Social, Desenvolvimento e áreas afins, além de diversas agencias das Nações Unidas, Escritórios Regionais da Organização Mundial da Saúde e Organizações Não Governamentais estarão reunidos no Rio de Janeiro, com o objetivo de apoiar a implementação de ações efetivas para enfrentar os determinantes sociais da saúde.

Vale portanto lembrar......http://eportuguese.blogspot.com/2011/05/determinantes-sociais-da-saude.html.

A Conferência será trasnmitida via webcast em português, espanhol, inglês e francês nos seguintes horários:

19 de outubro de 2011 - a partir das 14 horas (horário do Rio de Janeiro)
20 e 21 de outubro - a partir das 9:00 (horário do Rio de Janeiro)


O que são os Determinantes Sociais da Saúde? 
 

São as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham, envelhecem e morrem, bem como os sistemas criados para lidar com estas condições. Estes elementos condicionam os fatores de risco individuais e coletivos e influenciam a ocorrência de problemas de saúde. 

Mas não é só nos países em desenvovimento que se encontram disparidades sociais. Na Europa verificam-se grandes diferenças na esperança média de vida entre países. Estas diférenças podem chegam a ser de 20 anos para os homens e 12 anos para as mulheres e podem ser explicadas pelas diferentes situações economicas e sociais, que geram iniquidades em saúde (Interim second report on social determinants of health and the health divide in the WHO European Region).

Entre continentes, as diferenças tendem a acentuar-se. Um menino de 15 anos na Guiné-Bissau, por exemplo, tem cerca de 12% de chance de chegar aos 60 anos de idade enquanto que um menino de 15 anos na Suécia tem 91% de chance de chegar a mesma idade? 
Porque esta diferença tão marcante?
Naturalmente que vários fatores interferem com a expectativa de vida ao nascer, tais como a herança genética e fatores ambientais, mas acima de tudo, as condições sociais e econômicas de uma população interferem forma positiva ou negativa na forma em que estes dois meninos irão viver.
Essas condições incluem fatores como a educação e o tipo de trabalho que as pessoas exercem, além das condições de moradia alimentação.

Essas diferenças também ocorrem dentro de um mesmo país e, inclusive, entre homens e mulheres. Em 2010, a esperança de vida ao nascer no Brasil era em média de 73,1 anos. No Distrito Federal (região da capital, Brasília), uma das maiores concentrações de renda do país, a esperança de vida ao nascer pode chegar aos 79,6 anos para as mulheres. Já no Estado do Alagoas (no nordeste do Brasil) um dos Estados mais pobres do país, a esperança de vida à nascença pode ser de 63,7 anos. 

Por outro lado, tem-se verificado que pessoas com um nível educacional mais elevado são mais saudáveis do que aquelas que não completaram o ensino básico.  Isto gera um ciclo vicioso entre pobreza, falta de emprego e doença. 

É, portanto, necessário entender quais as condições sociais específicas das nossas populações, onde os governos podem atuar de forma mais rápida a gerar mudanças de politicas e intervenções eficazes para diminuir a desigualdade social, aumentar a qualidade de vida e melhorar o estado de saúde das populações.

Este e outros tantos pontos importantes serão abordados durante os 3 dias da Conferência. Ou seja, este deverá ser um fórum para discutir "estratégias, metodologias e experiências que orientem a implantação de políticas capazes de articular diferentes setores e diferentes parceiros em nível local, nacional e global".

Da Conferência, surgirão orientações para políticas de combate às iniquidades em saúde, bem como um compromisso político dos Estados para a ação sobre os determinantes sociais da saúde, expresso sob a Declaração do Rio 

Vamos aguardar...
Fontes:

Conferência Mundial sobre os Determinantes Sociais da Saúde. Disponível em http://cmdss2011.org/site/.

World Health Organization. Social Determinants of Health. Disponível em http://www.who.int/topics/social_determinants/en/
World Health Organization. Regional Office for Europe. Interim second report on social determinants of health and the health divide in the WHO European Region. Copenhagen, August 2011.





segunda-feira, outubro 10, 2011

10 de Outubro: Dia Mundial da Saúde Mental

Segundo a OMS, saúde mental é um estado de bem-estar em que o indivíduo tem percepção do seu potencial, consegue lidar com o stress do dia-a-dia, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a sua comunidade.

Milhões de pessoas em todo mundo são afetadas por desordens mentais, neurológicas e comportamentais, que podem causar um imenso sofrimento, isolamento social, dimuição da qualidade de vida e até aumento da mortalidade.

Segundo ao OMS mais de 154 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, 91 milhões de pessoas são afetadas pelo abuso de álcool e 15 milhões pelo abuso de drogas.

Um relatório publicado recentemente demonstrou que 50 milhões de pessoas sofrem de epilepsia e 24 milhões de Alzheimer e outras demências.

Estima-se ainda que cerca de 900 000 pessoas cometam suicídio todos os anos.

Um em cada quatro pacientes que se dirigem aos serviços de saúde têm pelo menos uma doença mental, neurológica ou comportamental.

A maioria das desordens não são diagnosticadas ou tratadas. Muitas vezes devido ao estigma e à falta de informação em relação à doença mental.

O tratamento medicamentoso tem um papel fundamental para o controle das doenças mentais, mas a alimentação, exercício físico regular e o sono tem importancia fundamental na prevenção e tratamento das doenças mentais.

Um estudo publicado a 6 de Outubro de 2011 no Journal Watch General Medicine demonstrou que o risco de depressão em mulheres que bebem quatro ou mais xícaras de café por dia diminui em 20% se comparado com mulheres que bebem 1 ou menos xícaras de café por dia.

Como se sabe, a depressão é a doença mental que afeta um maior número de pessoas em todo mundo, sendo prevalente nas mulheres.
Este estudo poderá ser então uma importante ferramenta de prevenção da depressão.

A maioria dos países em vias de desenvolvimento gasta menos de 1% de sua despesa total com a saúde,  com a saúde mental.
A política e legislação da saúde mental, bem como o tratamento  dos doentes deveriam ser consideradas prioridades para os países. Nos últimos anos, a OMS tem intensificado os apelos aos países para aumentarem o apoio aos serviços de saúde mental.


Veja a  mensagem do Diretor Regional para a Africa, Dr. Luis Gomes Sambo sobre o Dia Mundial da Saúde Mental
http://cspace.eportuguese.org/tiki-read_article.php?articleId=1231



sexta-feira, outubro 07, 2011

O mito dos Medicamentos Genéricos

   Você sabe o que é um medicamento genérico?

Os medicamentos genéricos são cada vez mais prescritos em todas as partes do mundo como alternativas igualmente eficazes e a preço mais accessível quando comparados com os medicamentos de laboratórios comerciais.


O que é afinal um medicamento genérico?
É um medicamento com a mesma composição tanto em sua qualidade quanto na quantidade da substância ativa do medicamento produzido por um laboratório comercial.
Da mesma forma, o medicamento genérico tem a mesma forma e tem a mesma indicação terapêutica que o medicamento produzido por um laboratório comercial.

Existem diferenças entre um medicamento genérico e um medicamento de referência?
Como dissemos acima, os medicamentos genéricos contêm o mesmo princípio ativo que os medicamentos produzidos pelos laboratórios comerciais. Isso quer dizer que os medicamentos genéricos atuam da mesma maneira no organismo.
Os genéricos podem no entanto, conter princípios não ativos diferentes tais como: corantes, açúcares, amidos,etc. Podem também distinguir-se em termos de tamanho, cor ou forma, mas nenhuma destas diferenças altera seu efeito terapêutico.
Os medicamentos genéricos podem em alguns casos possuir uma pequena alteração na sua estrutura química, no entanto isso não altera sua equivalência terapêutica.
Os medicamentos genéricos são realmente eficazes?
Um estudo de bioequivalência de 2008 avaliou 38 trabalhos científicos de ensaios clínicos publicados comparando medicamentos de laboratórios comerciais para o sistema cardiovascular com os equivalentes genéricos disponíveis. O estudo constatou que não existem diferenças significativas entre os dois. Isso quer dizer que os medicamentos genéricos são tão eficazes quanto os medicamentos de laboratórios comerciais.
Como identificar um medicamento genérico?
Os genéricos possuem obrigatoriamente uma identificação na embalagem exterior.
Esta identificação pode ser a sigla MG (Medicamento Genérico), como em Portugal ou podem diferenciar-se por um destaque colorido no rótulo, como é o caso do Brasil.

Todos os medicamentos possuem similares genéricos?
Não! Nem todos os medicamentos possuem similares genéricos. No entanto, os pacientes podem sempre perguntar ao médico ou ao farmacéutico sobre a existência de medicamentos genéricos similares aos que lhes foram prescritos.

Porque então não se utiliza somente os medicamentos genéricos?
A maioria dos medicamentos de referência possui uma patente que dura 20 anos. Durante este período não se pode produzir um medicamento genérico com a mesma composição do medicamento de referência. Por isso, muito medicamento novos no mercado não possuem equivalente genérico.

No entanto, alguns pacientes e alguns médicos por diversas razões optam por não utilizar o medicamento genérico. O médico e o paciente devem discutir suas opções e chegarem a opção mais adequada a cada caso.

Como é feita a prescrição do genérico?
O médico conhecendo o princípio ativo de um medicamento pode prescrever seu similar genérico mantendo a dosagem e forma farmacêutica necessária.

Os genéricos são realmente mais baratos que os medicamentos de referência?
Sim. Em regra, estes medicamentos custam ente 20 a 90% menos que os medicamentos de referência. Esta competitividade gerada pela indústria de genéricos incentiva a indústria farmacêutica a reduzir o preço do medicamento de referência.


O genéricos garantem aos doentes o acesso a medicamentos seguros, eficazes e de qualidade, permitindo aos Sistemas de Saúde dos países poupar verbas extremamente necessárias que permitam aos governos financiar tratamentos com medicamentos inovadores. No caso da União Europeia, por exemplo, os genéricos permitem poupanças aos Sistemas de Saúde na ordem dos 20 mil milhões de euros anuais.

 A concorrência gerada pelos medicamentos genéricos funciona também como um estímulo para a indústria farmacêutica passar a centrar-se na investigação de novas terapêuticas.

Com base nas respostas econtradas, conclui-se então que pode adquirir-se medicamentos genéricos com a mesma qualidade do medicamento original que detinha a patente, a um preço mais baixo. 
Qualquer dúvida que possa surgir em relação ao uso de medicamentos genéricos o doente deverá sempre informar-se junto do seu médico e/ou farmacêutico.

Bibliografia:


quarta-feira, outubro 05, 2011

SLIDESHOW PASSEIO - Parte VIII - Timor Leste

Timor Leste é um dos mais jovens países independentes do mundo. O país do sudeste da Ásia foi disputado por outras nações por muito tempo: Foi colônia de Portugal por quatro séculos; passou pelas mãos dos holandeses e japoneses e voltou para as mãos dos portugueses; e, em 1975, ganhou e perdeu a independência dentro de nove dias ao ser invadido pela Indonésia. Travou-se uma longa luta, até que Timor Leste teve a independência internacionalmente declarada em 2002.

Hoje, o país reconstrói a economia e começa a melhor aproveitar seus recursos de petróleo e gás natural. Como outras ex-colônias de Portugal, o país herdou o catolicismo (98% da população, até mais do que os outros) e a língua portuguesa (língua oficial junto com a língua Tetum). Mas existem outras 15 línguas indígenas ainda faladas pelo povo. 

O último país no alfabeto entre os oito países de língua oficial portuguesa também é o último da nossa série SLIDESHOW PASSEIO, que começamos no mês de agosto. Também passamos por Angola, Cabo Verde, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Mostramos um pouquinho das paisagens, povo, cultura e saúde pública de cada país. Aqui fazemos o mesmo com Timor Leste.  ´

A Rede ePORTUGUÊSe da Organização Mundial da Saúde tem o propósito de melhorar a distribuição de materiais e informações de saúde para e entre os países de língua portuguesa, no nosso idioma. Ao visitar os países e interagir com seus representantes no âmbito da saúde pública, tiramos fotos que colocamos na série SLIDESHOW PASSEIO, junto com outras que encontramos no mundo virtual. Espero que tenham aproveitado!

Mas antes de nos despedirmos dessa série (com planos de outros "slideshows" no futuro), queríamos que viessem passear um pouco (virtualmente) por Timor Leste. Vejam abaixo:     



Montagem e edição: Ana Ribeiro, Rede ePORTUGUÊSe

segunda-feira, outubro 03, 2011

Em busca de um genocida medieval

O século XIV foi um período sombrio para o continente europeu: surtos de fome assolavam a população, acirrando os conflitos sociais entre servos e senhores, vidas e recursos eram sacrificados na Guerra dos Cem Anos e o feudalismo mostrava francos sinais de decadência.
Na Inglaterra, folhas amareladas anunciavam o início do outono de 1348 e a chegada de uma das maiores pandemias já vividas pela humanidade. Trazida desde a China por comerciantes que cruzavam a Rota da Seda, a Peste Negra entra pelo continente europeu através da região da Criméia.
Também conhecida como "Peste Bubônica" ou "Grande Peste", essa enfermidade infecciosa era transmitida através de pulgas de roedores. O quadro clínico - febre, inchaço dos linfonodos e dores corporais - era devastador e, em 1/3 dos casos, fatal. Estudiosos estimam que, entre 1347 e 1351, 30 a 70% da  população europeia foi dizimada pela enfermidade, espalhando o pânico e o terror pelo Velho Continente. Para a religiosa mentalidade feudal, a epidemia era uma manifestação da fúria divina, uma inquestionável anunciação do apocalipse.
        Mas qual foi verdadeiro responsável pela Peste Negra? A resposta foi encontrada em um cemitério londrino. Um grupo de pesquisadores da Alemanha e Canadá debruçaram-se sobre as ossadas de vítimas da peste, enterradas no cemitério de "East Smithfield", em busca de evidências genéticas que revelassem o agente causador da doença. Parte do DNA da bactéria Yersinia pestis foi reconstituída a partir das células das vítimas da doença, revelando-a como o patógeno da Grande Peste.
        A comunidade científica já acreditava ser essa a bactéria causadora da Peste Bubônica, mas uma série de incertezas cercavam essa hipótese. Após a grande epidemia do século XIV, a  peste continuou a rondar a Europa e causar eventuais surtos da doença até meados do século XIX, quando finalmente abandonou o continente europeu. Desde então, surtos isolados foram registrados, porém os casos modernos da doença são muito mais amenos e menos mortais.
       Nas últimas décadas, ocorreu uma re-emergência da forma não bubônica da doença, principalmente em países asiáticos e africanos. Entre 2004 e 2008, 11 000 casos foram notificados, resultando em 700 mortes. O quadro clínico assemelha-se aos sintomas experenciados pela população europeia na Idade Média, porém em menor intensidade. Antibióticos são eficazes para o tratamento; entretanto, a dificuldade e a demora no diagnóstico podem levar parte dos doentes a evoluir para a morte.
        A pesquisa, publicada na Atas da Academia Nacional de Ciências dos Estados de Unidos, mostrou que a Peste moderna e da Peste Bubônica são causadas por variantes da mesma bactéria. É importante frisar que, apesar de se tratar do mesmo patôgeno, tratam-se de duas enfermidades diferentes. A pesquisa, realizada por uma equipe de pesquisadores supervisionada por Hendrik N. Poinar (Universidade McMaster) e Johannes Krause (Universidade de Tübingen), também representou um importante avanço nas técnicas empregadas no isolamento e reconstrução de fragmentos de DNA de microorganismos, entretanto não conseguiu estabelecer as diferenças entre as duas variantes da Y. pestis, o que explicaria porque as variantes do agente se tornaram menos agressivas ao longo dos séculos. Para responder a essa questão, faz-se necessário analisar maiores porções do DNA da bactéria:  "Nós precisaríamos reconstruir o Genoma completo da bactéria" - diz Hendrik Poinar, geneticista que trabalhou na presente pesquisa - "e isso é um trabalho para o futuro".